Suicídio além da fraqueza

O suicídio costumeiramene é atrelado ao egoísmo e à fraqueza, mas é hora de entender que ele pouco tem a ver com isso!

ENCONTRE AJUDA | FALE COM UM PROFISSIONAL

CVV (Centro de Valorização da Vida) — LIGUE 188

Por fim à própria vida ou, ainda, causar a própria ruína espontaneamente ou por falta de discernimento. De acordo com o dicionário, esse é o significado da palavra “suicídio”. Um significado tão breve e simplista para uma condição que pode se desenvolver de fatores tão diversos, desde a solidão até diferentes tipos de abusos, do uso de medicamentos à pressão sociocultural. Uma interminável lista de coisas podem trazer à tona sentimentos suicidas e, por isso, é tão importante falar e compreender melhor o tema.

No dia 10 do mês que se passou, setembro, foi o Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio. Quase que instantaneamente, as pessoas, as empresas, as marcas, todos sempre correm, às vezes até na melhor das intenções, para colocar mensagens de apoio em suas redes sociais, abrir a caixinha de mensagens para “conversar sobre sentimentos”, colorir suas fotos de amarelo e mostrar ao mundo que têm empatia pela dor do outro. Mas o mês acaba e é sempre perceptível a quebra imediata da corrente; logo, todos voltam à rotina habitual e pouco se fala sobre suicídio.

Mas, embora seja lembrada em um mês específico, a campanha do Setembro Amarelo ocorre o ano inteiro. Isso porque o suicídio é um problema de saúde pública que precisa ser constante monitorado, uma vez que, de acordo com dados da OMS, mata anualmente cerca de 800 mil pessoas. Além disso, seu percentual é mais evidente em alguns recortes sociais, sendo, por exemplo, a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos (mesmo que possa ocorrer em diferentes fases da vida) e responsável por mais de 79% das mortes entre países de baixa e de média renda. Já no Brasil, de acordo com o Centro de Valorização da Vida (CVV), a cada 45 minutos morre uma pessoa vítima do suicídio, totalizando cerca de 32 mortes diárias.

SUICÍDIO E INVALIDAÇÃO

Talvez você já tenha visto pessoas questionando algum suicídio, apontando questões que, em meio à tanta desinformação, tentam invalidar a morte de alguém. Dentre as mais comuns, muito se fala sobre fraqueza emocional, ingratidão e falta de consideração com os familiares. Mas a verdade é que o suicídio é um pacote que comporta um amontoado de outros fatores que podem culminar no ato. Por exemplo, cerca de 90% de vítimas do suicídios possuem doenças psiquiátricas, sendo 60% destas decorrentes de transtornos de humor, e os 40% restantes, por condições como esquizofrenia, alcoolismo, abuso de drogas, abusos físicos e/ou sexuais e transtornos de personalidade.

Além dessas e outras características clínicas, ainda podem existir fatores psicossociais — como viver em áreas rurais, possuir pessoas detentoras de armas ao seu redor, pobreza, desemprego e isolamento — que culminem em suicídio. Tal como durante a pandemia da COVID-19 deste ano, estudos com alguns países mostraram que problemas de saúde mental e de pensamentos suicidas cresceram durante o período de isolamento social.

Entretanto, uma associação imediata ao suicídio é a depressão. Isso porque ela, dentre outros sintomas, causa uma forte perda do prazer pela vida, criando-se uma falta de esperança e, dessa forma, o autoextermínio parece ser, para muitos, a forma de resolver o que parece sem solução. Não por acaso, esse transtorno de natureza psíquica é uma das principais desordens relacionadas ao comportamento suicida e essa característica de “desesperança” seria a peça principal para a decisão de se tirar a própria vida. Ao visualizar outras situações, como bullying, discriminação, perda de entes queridos, grandes e significativas mudanças, solidão, identidade de gênero, traumas, toda essa extensa lista sempre é capaz de convergir para uma visão desesperançosa da condição atual.

Mas por que isso acontece? Por que pessoas com pensamentos suicidas constantemente sentem que não há mais soluções, senão a morte?

SUICÍDIO DO PONTO DE VISTA NEUROQUÍMICO E BIOLÓGICO

Além dos traumas, perdas e abusos citados no tópico acima, o suicídio possui ainda outras vertentes de análise, que trazem uma outra visão e perspectiva à condição.

Do ponto de vista neuroquímico, uma das principais anormalidades cerebrais correlacionadas ao suicídio são refrerentes à serotonina (neurotransmissor que regula o humor, a sensibilidade, as funções cognitivas, entre outras). Em exames cerebrais feitos em pessoas após morte por suicídio, percebeu-se que as concentrações do principal metabólito da serotonina eram reduzidos, mas, por outro lado, a concentraçãos da enzima hidroxilase triptofana, que é envolvida na síntese de serotonina, estava elevada e, portanto, auxiliava na ampliação do neurotransmissor. Outros estudos ainda relatam que a queda desse neurotransmissortem tem mais correlação com o transtorno depressivo do que propriamente com o suicídio, mesmo que sejam duas condições amplamente relacionadas, e, por isso, antidepressivos geralmente atuam para aumentar níveis de serotonina no corpo.

A segunda visão seria sobre a questão biológica. Alguns especialistas relatam que ter pensamentos sobre ou ser suicida têm certa relação com o histórico familiar, ou seja, estudos mostram que, por exemplo, gêmeos monozigóticos (idênticos) tem mais propensão ao suicídio do que os heterozigóticos (não idênticos), ou, ainda, relata-se que é mais comum taxas de suicídio serem maiores entre crianças adotadas cujos pais biológicos também apresentavam comportamentos e pensamentos suicidas do que entre aqueles que eram filhos de indivíduos nos quais não se observava essa tendência (independente, inclusive, da presença de distúrbios psicológicos em ambos, que criariam certa predisposição). No entanto, não se sabe se há um gene que contribua diretamente com distúrbios psiquiátricos, mas sabe-se que a atividade da serotonina no corpo sofre um controle genético parcial e, portanto, tem relações genéticas com o suicídio.

SINTOMAS E TRATAMENTOS

Por fim, é de extrema importância saber reconhecer pessoas suicidas e entender quais as melhores formas de ajudá-los.

Alguns sinais relacionados à condição são:

  • Falar constantemente sobre suicídio e expressar a vontade ou pensamntos sobre tirar a própria vida;
  • Sentimentos de desesperança;
  • Uso excessivo de drogas e de álcool;
  • Mudanças perceptíveis na rotina, como sono e alimentação, mas que fogem do padrão esperado;
  • Realizar atividades de autodestruição;
  • Apresentar mudanças extremas de humor e desenvolver distúrbios como ansiedade severa e depressão;
  • Dizer adeus como se fosse o último encontro e a pessoa estivesse se despedindo para sempre;
  • Vender ou doar todos os bens.

Além disso, embora conversar pareça uma solução adequada, isoladamente não será a medida que normalmente fará alguém desistir do suicídio. Primeiramente, é necessário reconhecer a condição e, então, tentar preveni-la de alguma forma. Inicialmente, uma conversa pode postergar a situação e até mesmo ajudar a compreendê-la, mas é indiscutível a necessidade do auxílio de profissionais da saúde. Alguns tratamentos, como Psicoterapia (ou terapia), são essenciais por proporcionar um espaço seguro e livre de julgamentos para compreender e aprender à lidar com a tendência suicida. Outra medida é reconhecer quaisquer distúrbios e sentimentos que possam contribuir com a situação e, dessa forma, receber o devido tratamento, juntamente com a prescrição de remédios por um psiquiatra, como antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos, caso for detectada a necessidade por parte dos profissionais qualificados para tal.

Death of Chatterton (1856)

Texto por Giovanna Abelha.

Revisão por Ádria Silva Guimarães.

Arte de Henry Wallis.

>> Este texto reflete exclusivamente a opinião do autor, e não a da Equipe MT!

O aluno no centro do palco. instagram.com/medtalksufu/

O aluno no centro do palco. instagram.com/medtalksufu/