Rapunzel, conexões e a neuroplasticidade

Você é capaz de qualquer coisa e quanto mais experiências vivenciar, mais conexões neurais existirão no seu sistema nervoso.

O filme “Enrolados”, estreado em novembro de 2010 pela Walt Disney Pictures, conta a história de uma princesa que viveu 18 anos presa em uma torre escondida em uma floresta. No filme, Rapunzel passa todos os seus dias limpando a casa, pintando, jogando xadrez, conversando com o seu animal de estimação — um camaleão que entende o que ela diz — e escovando os seus longos cabelos. Pouco tempo antes de seu aniversário de 18 anos, ela tem a oportunidade de sair da torre e pisar pela primeira vez na grama, além de conhecer novas pessoas, sabores, cores, sons e desfrutar de diversas experiências e de novos aprendizados.

Estudando sobre a neuroplasticidade, questiono-me quantas novas conexões neurais foram formadas após a grande mudança de vida experimentada pela protagonista. As conexões neurais são como os caminhos que os neurônios fazem e os outros neurônios que eles encontram quando realizamos alguma atividade. Quando você aprendeu a escrever, um novo caminho de neurônio, ou seja, uma nova conexão neural foi criada no seu sistema nervoso. Sempre que você estiver escrevendo, os neurônios vão fazer aquele mesmo caminho e a informação será processada no mesmo lugar do seu córtex cerebral. Isso serve para outras atividades como dançar, dirigir e, até mesmo, cozinhar. Ou seja, sim! Você — mais especificamente o seu sistema nervoso — é capaz de aprender praticamente qualquer coisa. Todas as suas habilidades chegam até o seu córtex de alguma forma e quando você começa uma nova atividade, o seu sistema nervoso começa um novo caminho: isso é neuroplasticidade! Em termos formais, a neuroplasticidade é um mecanismo adaptativo que permite a formação de novos circuitos neuronais em resposta a experiências.

Essa extraordinária habilidade é explorada em demasia no tratamento de doenças que afetam os componentes do Sistema Nervoso (SN). No entanto não se restringe somente a isso. Como já vimos, o fenômeno da neuroplasticidade é percebido em diversas situações. Uma pessoa portadora de deficiência visual que faz o uso do braile para se comunicar tem uma região cortical para o tato mais desenvolvida que uma pessoa que enxerga — pois essa faz menos uso desse sentido. Logo, os circuitos neurais são diferentes para cada indivíduo , mas também podem divergir de um membro esquerdo para o direito, por exemplo. Pessoas destras — cuja mão dominante é a direita — teoricamente têm uma região cortical maior que representa a mão direita, do que a que representa a mão esquerda.

Suponhamos que você seja destro, mas começa a treinar diversas habilidades com a mão esquerda, como escrever, segurar copos e garfos e até mesmo dedilhar um instrumento. A prática fará com que novas conexões sejam formadas no seu sistema nervoso e a área de representação cortical da sua mão esquerda poderá ser maior (porque mais neurônios estão chegando e saindo de lá, entende?). Logo, o treinamento de uma habilidade pode promover a neuroplasticidade. Devido a isso, esse mecanismo é muito usado na recuperação de pacientes e traz resultados positivos, o que é extraordinário! Os meios pelos quais a neuroplasticidade ocorre ainda são estudados, mas a capacidade do nosso sistema nervoso de criar novos caminhos é sensacional.

Sabe o que mais pode levar à neuroplasticidade, além do treinamento? A experiência, muito associada com o enriquecimento ambiental. Um estudo colocou animais em gaiolas-viveiro diferentes, sendo que algumas dessas eram maiores e ofereciam uma grande variedade de estímulos (objetos diversos, rodas, escadas, e várias formas de conseguir o alimento). As alterações no sistema nervoso dos animais que viveram nessas gaiolas foram significantes! Notou-se aumento na espessura das camadas do córtex visual, os corpos de neurônios e seus núcleos ficaram maiores e o número de sinapses (ou seja, conexões neurais) também. A diversidade de estímulos é, portanto, outro aspecto relacionado à neuroplasticidade.

A Rapunzel, princesa citada anteriormente, passou muito tempo trancada. Mas a sua vida poderia ter sido pior caso ela tivesse vivido em uma torre vazia, pois suas conexões cerebrais seriam menores, já que haveria menos estímulos. Mesmo trancada, ela realizava muitas atividades, como limpar a casa, pintar, jogar xadrez, conversar com seu camaleão e escovar os cabelos. Ou seja, ela tinha estímulos, mesmo que pequenos. Ainda assim, as experiências vivenciadas após escapar do cativeiro criaram ainda mais caminhos de neurônios.

A experiência pode ser sair de uma torre ou aprender um instrumento musical. Escrever com a mão não dominante, aprender a bordar (recomendo muito), começar uma nova prática esportiva, arriscar-se em acompanhar uma coreografia ou até mesmo o grande desejo da minha mãe: conseguir digitar no celular com os polegares. Não importa o que escolher, novas práticas levarão a novas conexões. Na mente e na vida.

Rapunzel: Mas e depois de realizar o meu sonho (uma conexão nova)? O que farei?

Flynn Rider: Acho que essa é a melhor parte! Você vai ter que procurar um novo sonho (uma nova conexão).

Texto por Bárbara Caixeta de Carvalho Leão.

Revisão por Nayani Alves Ramos e Ádria Silva Guimarães.

Imagem por Walt Disney Pictures

>> Este texto reflete exclusivamente a opinião do autor, e não a da Equipe MT!

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O aluno no centro do palco. instagram.com/medtalksufu/

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