Guia Alimentar para a População Brasileira: o que é e qual a sua importância?

O Guia Alimentar para a População Brasileira é um texto com objetivo de orientar alimentação adequada e incrementar a qualidade de vida dos indivíduos.

A transição epidemiológica e nutricional corresponde à diminuição das taxas de mortalidade por doenças infecciosas, por enfermidades parasitárias e por deficiências nutricionais, ao passo que as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) — diabetes mellitus, câncer, doenças cardiovasculares, doenças respiratórias crônicas, entre outras — assumem a posição de responsabilidade pela maior parte das mortes. Essa é a realidade do Brasil, que em 2017, registrou 56,9% dos óbitos relacionados às DCNTs.

Tal cenário está intimamente relacionado à transição demográfica, ou seja, uma maior expectativa de vida, ao mesmo tempo em que há uma baixa na taxa de natalidade. Como maestros dessa orquestra, podemos citar a industrialização, que proporcionou modernização e melhores condições sanitárias, por exemplo, e o desenvolvimento da medicina, por meio da descoberta e do uso de vacinas e de remédios.

O envelhecimento é frequentemente acompanhado por doenças, visto que danos celulares acontecem durante toda a vida e, em certo momento, pode não ser compensado por outros mecanismos. Entretanto, o atual estilo de vida ocidental — sedentarismo, alto consumo calórico, estresse, abuso de álcool, entre outros — contribui para que as DCNTs se desenvolvam cada vez mais cedo e, assim, comprometam a qualidade de vida das pessoas acometidas, já que essas doenças podem causar sequelas, quando não levam à morte, o que compromete a qualidade de vida do indivíduo, de sua família e do país como um todo, pois o sistema de saúde se torna ainda mais sobrecarregado a fim de atender a demanda proporcionada por esse cenário.

Nesse sentido, é dever do Estado promover políticas públicas para melhorar a qualidade de vida da população. Assim, o Guia Alimentar para a População Brasileira foi criado em 2006 e faz parte da diretriz Promoção da Alimentação Adequada e Saudável (PAAS) que integra políticas do Sistema Único de Saúde (SUS) — Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) e Política Nacional de Promoção de Saúde. O objetivo é orientar a população a se alimentar de maneira mais saudável e a fazer escolhas adequadas.

A edição de 2014 deixou clara a função do guia alimentar: ser difundido por profissionais de saúde, agentes comunitários, educadores, entre outros. Assim, em meio a críticas do Ministério da Agricultura, que pediu a revisão do guia e a retirada do desaconselhamento acerca dos ultraprocessados, é ainda mais importante reiterar a importância das boas práticas alimentares como um dos pilares da promoção de saúde.

Segundo o Guia, há dez passos para alcançar uma alimentação saudável:

  1. Fazer de alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação

Alimentos in natura são aqueles obtidos de plantas ou de animais e que não sofreram nenhuma alteração após deixar a natureza. Exemplos: folhas, frutos, ovos e leite.

Alimentos minimamente processados são alimentos in natura submetidos a processo de limpeza, remoção de partes não comestíveis, fracionamento, moagem, secagem, pasteurização, refrigeração, entre outros, que não incluam adição de sal, de gorduras, de açúcar, ou de outras substâncias. Exemplo: cortes de carnes resfriados, castanhas, frutas secas e arroz branco.

É importante aliar alimentos de origem animal, pois contêm proteínas, vitaminas e minerais, a alimentos de origem vegetal, os quais contêm fibras, nutrientes e menos calorias por grama em comparação aos de origem animal. Ademais, o consumo de carne vermelha deve ser limitado e o de carne processada (bacon, salsicha, entre outras) deve ser evitado.

2. Utilizar óleos, gorduras, sal e açúcar em pequenas quantidades ao temperar e cozinhar alimentos e criar preparações culinárias

Óleos, gorduras, sal e açúcar são utilizados para temperar, cozinhar e criar preparações culinárias. São fabricados pela indústria a partir da extração de substâncias presentes em alimentos in natura e, no caso do sal, retirado diretamente da natureza. O consumo dessa categoria deve ser limitado, pois o excesso de sódio e de gorduras saturadas na alimentação estão relacionados a doenças cardiovasculares, por exemplo, enquanto o de açúcar aumenta o risco de cárie, de obesidade e de várias DCNTs.

3. Limitar o consumo de alimentos processados

Alimentos processados correspondem à adição de, principalmente, sal ou açúcar a alimentos in natura para aumentar a durabilidade ou torná-los mais palatáveis. Exemplos: frutas em calda, queijos e pães. Assim, essa adição desfavorece a composição nutricional do alimento, pois há diminuição da quantidade de água e aumento da densidade calórica. Portanto, devem ser apreciados como parte de alguma preparação baseada em alimentos in natura ou minimamente processados.

4. Evitar o consumo de alimentos ultraprocessados

Alimentos ultraprocessados são aqueles de fabricação industrial em diversas etapas e técnicas de processamento. Possuem vários ingredientes, como proteínas de soja e do leite, extratos de carne, substâncias sintetizadas em laboratórios a partir de fontes orgânicas como carvão e petróleo, entre outros. Exemplos: refrigerantes, bolachas recheadas, “macarrão instantâneo”. Para diferenciar processados de ultraprocessados basta analisar o rótulo do produto. Alimentos com mais de cinco ingredientes, cujos nomes são pouco familiares (gordura vegetal hidrogenada, emulsificantes, corantes, aromatizantes, realçadores de sabor, xarope de frutose) provavelmente são ultraprocessados.

O seu consumo deve ser evitado, pois, além de sua forma de produção, de distribuição, de comercialização e de consumo impactarem o meio ambiente, os ultraprocessados estão fortemente relacionado à maior incidência de DCNTs. Ademais, é importante lembrar que produtos reformulados “light” ou “diet” reduzem teor de açúcar às custas de aumento do teor de gordura e vice-versa, por exemplo. Tais produtos favorecem o consumo excessivo de calorias, pois “bagunçam” os dispositivos do cérebro e do sistema digestivo que controlam o balanço energético.

Apesar de serem muito enaltecidos por propagandas, esses produtos possuem composição nutricional desbalanceada e, assim, devem ser evitados.

5. Comer com regularidade e atenção em ambientes apropriados e, sempre que possível, com companhia

Locais tranquilos, limpos e confortáveis propiciam a concentração no ato de comer e, assim, evitam que se coma em excesso. Já comer em companhia fortalece as relações sociais, evita que se coma de maneira muito rápida, além de promover o sentimento de partilha.

6. Fazer compras em locais que ofertem variedades de alimento in natura ou minimamente processados

É interessante que se estimule a agricultura familiar e a economia local, como as feiras de pequenos produtores rurais, a fim de incentivar meios mais sustentáveis de produção. Ou seja, optar por alimentos de base agroecológica e orgânicos, que possuem menos contaminantes, protegem a biodiversidade e contribuem para a desconcentração de terras produtivas e para a criação de trabalho.

7. Desenvolver, exercitar e partilhar habilidades culinárias

O enfraquecimento da transmissão familiar de habilidades culinárias — preparo dos alimentos — favorece o consumo de ultraprocessados. A ideia de que os ultraprocessados substituem a preparação de alimentos in natura ou minimamente processados, propagada pela publicidade, não condiz com a realidade.

Conversar com familiares, compartilhar receitas com os amigos e procurar vídeos explicativos na internet são algumas ferramentas para desenvolver as habilidades culinárias.

8. Planejar o uso do tempo para dar a alimentação o espaço que ela merece

O domínio de técnicas culinárias pode reduzir o tempo de preparo dos alimentos. Outra estratégia é compartilhar com os familiares que moram na mesma casa as obrigações referentes à compra, ao preparo e à higienização de louças. Reconsidere também quais atividades poderiam ceder espaço para a promoção da alimentação adequada.

9. Dar preferência, quando fora de casa, a locais que servem refeições feitas na hora

Quando estiver fora de casa, é aconselhado procurar restaurantes que servem comida por quilo, pois há disposição de variadas preparações culinárias saudáveis a um bom preço. Outra opção é levar alimentos preparados (marmitas) de casa para o local de trabalho ou de estudo.

10. Ser crítico quanto a informações, orientações e mensagens sobre alimentação veiculadas em propagandas comerciais

Uma dica é evitar fazer compras em lugares onde só há venda de ultraprocessados. Ademais, é interessante que se faça uma lista antes de ir às compras para escolher o que realmente é necessário e diminuir a tentação de comprar ultraprocessados em promoção, por exemplo.

É essencial ter cuidado com as propagandas, especialmente com as veiculadas para crianças, pois essas são facilmente persuadidas sobre a ideia de que os ultraprocessados são “super-alimentos”, que promovem saúde e aceitação social. Assim, os pais podem limitar o acesso à televisão, por exemplo, e, desse modo, propiciarão que seus filhos também sejam mais ativos.

Os dez passos apresentados representam um resumo do Guia e não substituem sua leitura completa e nem a consulta com um profissional de saúde. Por meio dele, é possível entender que a alimentação adequada é um direito humano básico. A crença de que uma alimentação saudável é mais cara está errada, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e precisa ser combatida. No atual cenário de aumento de doenças crônicas não transmissíveis é primordial o incentivo a boas práticas alimentares. Portanto, o Guia Alimentar para a População Brasileira deve ser difundido e suas recomendações devem ser seguidas.

Texto por Eduarda Nogueira.

Revisão por Ádria Silva Guimarães.

Imagem por Lana Sweet/iStock.

>> Este texto reflete exclusivamente a opinião do autor, e não a da Equipe MT!

O aluno no centro do palco. instagram.com/medtalksufu/

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