Delirium é um distúrbio bastante comum caracterizado por uma mudança rápida (aguda) na cognição (entendimento), na atenção e na consciência.

DELÍRIO

Nua, mas para o amor não cabe o pejo

Na minha a sua boca eu comprimia.

E, em frêmitos carnais, ela dizia:

– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo

Fremente, a minha boca obedecia,

E os seus seios, tão rígidos mordia,

Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos

Disse-me ela, ainda quase em grito:

– Mais abaixo, meu bem! — num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,

– Mais abaixo, meu bem! — disse ela, louca,

Moralistas, perdoai! Obedeci….

O poema acima, escrito por Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, mais conhecido como Olavo Bilac, fala sobre uma experiência amorosa intensa e tem como título um distúrbio bastante recorrente nas unidades de saúde: o Delirium. É sobre isto que iremos falar hoje, mais especificamente a respeito de suas causas.

Delirium é um distúrbio neurocognitivo bastante comum que é caracterizado por uma mudança rápida (aguda) na cognição (entendimento), na atenção e na consciência. Alguns estudiosos descrevem esse distúrbio como uma falha cerebral. Ele é conhecido e descrito por uma série de termos, como: estado mental alterado, alteração aguda do estado mental, encefalopatia, agitação, nível alterado de consciência, falha cerebral e, até mesmo, psicose.

Mas o que causa o Delirium? Desarranjos metabólicos, alterações eletrolíticas de sódio e de potássio, bem como um desbalanço na glicemia são causas bastante comuns desse distúrbio. Ainda, desidratação, uremia (aumento da quantidade ácido úrico no sangue — lembrando que o ácido úrico deve ser eliminado na urina), lesões hepáticas, hipóxia (diminuição da oxigenação dos tecidos), hipercapnia (elevação da concentração de dióxido de carbono — CO2 — na corrente sanguínea) e inflamação são responsáveis também pelo o desenvolvimento do delirium.

As causas citadas acima podem desencadear o delirium tanto de forma direta como indireta. Por exemplo, o desbalanço na glicemia leva a um dano direto no cérebro, pois esse órgão necessita da glicose como fonte de energia. Já a inflamação, por exemplo, atua de forma indireta nesse acometimento cerebral, pois leva a um processo de ativação de citocinas, que irão resultar em um fluxo sanguíneo prejudicado e à morte neuronal — em casos extremos.

Outro fator importante associado ao delirium é o desequilíbrio de neurotransmissores como acetilcolina, serotonina, ácido gama-aminobutírico (GABA) e a dopamina. Isso leva a uma incapacidade do paciente acometido de processar informações e de responder adequadamente, o que caracteriza a manifestação clínica do delirium. Ademais, o indivíduo pode apresentar um estado hipervigilante, sonolento — quase comatoso, ou, até mesmo, misto. A partir dessa variação de apresentações clínicas, temos os 3 tipos de delirium: hipoativo, hiperativo e misto.

Agora que conhecemos as causas do delirium é interessante sabermos quais doenças ou enfermidades são capazes de provocar esses desequilíbrios. É importante entendermos que, na imensa maioria das vezes, para todo desequilíbrio metabólico, eletrolítico e entre outros — importantes causadores do delirium -, existe uma doença ou lesão prévia associada, pois em poucos casos essas alterações são primárias (ou seja, não possuem uma razão conhecida).

Algumas condições neurológicas como Acidente Vascular Cerebral (AVC), encefalite ou meningite, e lesão cerebral isquêmica ou traumática são os principais responsáveis pelo delirium. Além disso, doenças cardiovasculares que acometem o fluxo sanguíneo e a oxigenação como Infarto Agudo do Miocárdio (IAM), falência cardíaca, embolismo pulmonar e choque também estão associados ao delirium, bem como suas manifestações clínicas.

Ademais, o envelhecimento também é considerado como um agente causador do delirium. Isso está relacionado às alterações que acontecem nessa fase da vida, como a dificuldade de esvaziamento do reto e da bexiga nos idosos, associada à sarcopenia — perda sistêmica de músculo esquelético e liso, que são tecidos de sustentação e são responsáveis pela ação desses dois órgãos. Assim, a constipação e a retenção urinária são causas bastante comuns de delirium na terceira idade.

Outra importante precursora desse distúrbio cerebral é a dor. A dor não controlada causa um sofrimento intenso e, se não tratada, leva ao delirium. Ademais, identificar dor em tais pacientes pode ser bastante difícil devido à perda sensorial, às dificuldades de comunicação e, até mesmo, à demência. É importante ressaltar que pacientes com comprometimento cognitivo de forma crônica ou prolongada devem ser especialmente observados quanto a sinais não-verbais de dor, pois eles não conseguem relatar, de forma confiável, seus sintomas de dor.

Por fim, certos efeitos colaterais de medicamentos e de toxinas, o que inclui metais pesados, podem também ser responsáveis pelo delirium. Uma informação interessante é que todos os fármacos fitoterápicos podem causar delirium, porém existem alguns específicos que são mais propensos a tal acometimento, são eles: anticolinérgicos, antidopaminérgicos, antipsicóticos, hipnóticos e sedativos, bem como outros medicamentos de ação central.

Dessa forma, nota-se que o delirium, mesmo conhecido por outros nomes — nenhum deles com o aspecto romantizado como traz Olavo –, possui várias causas e está ligado a várias doenças e distúrbios. Assim, é dever do profissional de saúde entender e saber identificar esse quadro clínico tão importante.

Texto inspirado no artigo Delirium

Texto completo por Fellipe Leonardo Torres Dias.

Revisão por Ádria Silva Guimarães.

Imagem por Nursing Standard

>> Este texto reflete exclusivamente a opinião do autor, e não a da Equipe MT!

O aluno no centro do palco. instagram.com/medtalksufu/